Por B.F. Hasckel | Romance & Cinema
Todo mundo conhece Tolkien como o autor de O Senhor dos Anéis. Pouca gente sabe que ele se considerava, antes de tudo, um filólogo.
E foi exatamente por ser filólogo que a Terra-média existe.
1. O professor de Oxford que amava línguas mortas
J.R.R. Tolkien não era só escritor — era escritor, acadêmico, professor, filólogo e poeta. Ele se tornou professor de anglo-saxão na Universidade de Oxford de 1925 a 1945, e depois de inglês e literatura inglesa de 1945 a 1959, considerado um dos maiores especialistas do assunto.
No Exeter College, em Oxford, ele mergulhou no estudo da filologia, especializando-se em línguas anglo-saxônicas e germânicas. Ao longo da vida estudou grego, latim, gótico, inglês médio, anglo-saxão e nórdico antigo, além de finlandês, galês, islandês e foi até colaborador do monumental Oxford English Dictionary.
Ele mesmo definia a filologia de um jeito lindo: o estudo e conhecimento das línguas enquanto instrumento ou meio de expressão das emoções artísticas de um povo.
Tolkien era um filólogo no sentido mais literal possível: amante das palavras — philos (amor) + logos (palavra).
2. Primeiro veio a língua, depois veio a história
Essa é a parte que mais me fascina como escritora.
A maioria dos autores cria personagens e depois inventa uma língua para eles. Tolkien fez o contrário.
Filólogo meticuloso que era, resolveu desenvolver uma história para explicar sua árvore linguística ficcional. Ele já tinha criado línguas desde os 12 anos — aprendeu latim, alemão, francês com a mãe e depois gótico, finlandês. Um dos primeiros idiomas que inventou, ainda na década de 1910, foi o quenya, que combinava elementos do finlandês, grego e latim.
O quenya e o sindarin, as línguas dos elfos, não são palavras jogadas: têm gramática, fonética, evolução histórica, dialetos. O sindarin foi inspirado no galês, o quenya no finlandês. Ele criou pelo menos duas línguas bem estruturadas e outras como khuzdul, adûnaico e a língua dos Ents.
Ele dizia: "Inventei um mundo para que minhas línguas tivessem onde ser faladas."
Imagina? A Terra-média inteira nasceu porque ele queria ouvir suas línguas vivas.
3. O que isso tem a ver com romance & cinema?
Tudo.
Quando você assiste O Senhor dos Anéis e ouve Galadriel falando em élfico, você não está ouvindo "blá-blá-blá inventado". Você está ouvindo 40 anos de estudo filológico. Peter Jackson precisou de linguistas no set para garantir a pronúncia correta porque Tolkien deixou dicionários inteiros.
É o mesmo que a gente faz no romance, em escala menor: quando escolho uma palavra antiga para uma cena de época, quando pesquiso como se declaravam em 1890, eu estou fazendo filologia caseira.
Tolkien prova que a filologia não é chata ou acadêmica. Ela é o ato mais romântico que existe: acreditar que uma palavra merece um mundo inteiro só para ela existir.
Ele queria elaborar uma série de mitos interligados que expressassem o espírito poético de sua amada Inglaterra. E conseguiu.